Dexter

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“Tonight’s the night. It’s going to happen again and again. Has to happen.“

Dexter é um “lab geek” da polícia, que trabalha com sangue em investigações forense, porém ele é também um serial killer. Mas diferente dos outros, ele tem um código a seguir: matar somente assassinos. Isso gera uma dúvida aos espectadores se Dexter deve ser considerado um monstro (que é como ele mesmo se refere) ou como uma espécie de herói para Miami, matando somente aqueles que “merecem“. A série, que já está na sua sétima temporada, traz em cada uma um tema principal que envolve a vida do protagonista e os seus anseios, além de ter também um “vilão“ principal, que durante toda a temporada é o alvo principal de Dexter, trazendo novas descobertas à série. Em cada episódio também há outros assassinos que aparecem no caminho dos plásticos do nosso anti-herói, sendo pequenas histórinhas que se fecham no próprio episódio.

No capítulo piloto da série (o qual analisaremos aqui), logo de cara descobrimos que Dexter foi criado por um detetive (Harry), e que mesmo na sua infância ele já tinha o desejo de matar. É nesse momento que Harry decide impor seu código a ele, de matar somente as “pessoas más”, e o ensina a operar sem deixar nenhum rastro. Após a morte de Harry, Dexter começa a trabalhar no departamento forense da polícia de Miami, onde Debra, sua irmã, também trabalha como policial. Durante a noite, Dexter vive sua segunda vida, seguindo e matando assassinos e coletando amostras de seus sangues (que guarda em uma caixa de coleções). Além disso, Dexter tem uma namorada, Rita, mãe de dois filhos, e tão danificada quanto ele, à sua própria maneira. Nesse episódio começa a saga do primeiro vilão principal, conhecido como Ice Truck Killer, um serial killer que mata prostitutas e drena todo seu sangue, deixando seus membros congelados e separados.

Pegamos os quatro conceitos utilizados por Jason Mittel no artigo “Lost in a great story”, que são sobre a série Lost, e os aplicamos em Dexter, que segue a mesma linha de suspense e mistério.

Propósito unificado:

O propósito unificado de uma série é a “crença” do público na unidade da série, de que todos os “mistérios” serão resolvidos em algum momento da trama, sem deixar pontas soltas. No caso de Dexter, isso funciona muito bem, pois como já dito, a série é bastante “blocada“.

Em cada episódio há algum ou alguns certos personagens de interesse de Dexter, cuja história é resolvida rapidamente (entre ele achar o bandido, ter a certeza de que é realmente o culpado e armar a emboscada para levá-lo ao seu “ritual“ de morte, como, por exemplo, com o pedófilo do piloto). O espectador não precisa aguardar mais do que alguns minutos para que essa sequencia seja resolvida redondamente.

Aí, há também o tema da temporada, que no caso da primeira, envolve a infância de Dexter e como ele se tornou esse seria killer, além da investigação do vilão principal, o Ice Truck Killer. Cada temporada contém esse propósio unificado, que sempre atinge as expectativas dos espectadores, pois do primeiro ao último episódio essa trama vai se estabelecendo cada vez mais concretamente, revelando todos os mistérios que foram colocados em suspense, até o “gran finale“ do ultimo episódio (principalmente na primeira temporada, na qual há uma grande surpresa final).

Além disso, há o propósito unificado da série como um todo, que criam como suspense questões do tipo: será que Dexter será pego e preso? Será que um dia ele vai deixar de matar essas pessoas? Será que ele vai conseguir criar sentimentos verdadeiros por alguém? E como a maravilhosa série que é, todas essas questões vão sendo respondidas, deixando os espectadores muito felizes e sempre querendo ver mais.

Fanatismo forense:

O interessante de se acompanhar uma série como um espectador forense, no caso de Dexter, é que o personagem em si apresenta características de um fanático forense, procurando por pequenos detalhes que possam levá-lo a uma conclusão sobre um certo caso de assassinato em série. Lembrando que fanatismo forense é quando o espectador é encorajado a desvendar o caso por falta de informações dadas na tela e por pequenas nuances que se repetem ao longo da série que, se forem modificadas ou desaparecerem, fazem com que nós, espectadores fanatistas forenses, procuremos pelas soluções em outras formas de mídias, seja pelas teorias de outros espectadores expressas em blogs ou por fofocas entre amigos que assistem a mesma série, nos dando a sensação de detetives do seriado e nos trazendo imensa satisfação quando nossas teorias, muitas vezes pensadas e repensadas, condizem com a história.

Como um forense, Dexter é um expert em análise sanguínea e trabalha no Departamento de Polícia de Miami. No entanto, logo no primeiro episódio da temporada suas habilidades de encontrar serial-killers são questionadas, a partir do momento em que o serial-killer em evidência possui a capacidade de retirar por completo o sangue de suas vítimas (prostitutas de Miami), deixando Dexter cada vez mais instigado a correr atrás do caso e trazendo consigo a adrenalina de ser chamado para um duelo, onde o oponente se dispõe a participar do jogo.

Dentro de uma história voltada aos forenses, desde o início os produtores já pensam em como confundir a cabeça do espectador, colocando falsas pistas e permitindo que nós, detetives da série, pensemos sobre o comportamento dos personagens e os acontecimentos que envolvem a todos.

No caso de Dexter, desde o primeiro episódio já nos é expresso como o personagem se comporta e como ele tem certeza de quais são suas características psicológicas, já que o protagonista em si é o nosso narrador. Entretanto, conforme a narrativa vai se desenvolvendo, nós espectadores passamos a nos perguntar sobre a veracidade das afirmações ditas logo de início e se realmente Dexter é um completo sociopata.

Os forenses não devem acreditar em nada que lhes é imposto, mesmo que seja pelo querido Dexter protagonista assassino de assassinos em série.

Estética operacional:

O nível de complexidade de uma narrativa é o principal responsável pelo “fanatismo forense”, que por sua vez se origina da chamada “Estética Operacional”, desenvolvida por uma determinada história. A tal “estética operacional” pode ser entendida basicamente como a estrutura de desenvolvimento de um enredo que não se restringe apenas ao universo ficcional. Ela perpassa o “storyworld”, fazendo surgir um engajamento e interesse maior do espectador pela narrativa em questão, pois expandindo “os limites da tela” permite que ele veja muito além do que somente a ficção, observando como a linha que a narrativa segue trabalha para distorcer ou direcionar nossa visão da história e fazendo descobertas, conforme os rumos tomados pela histórias vão se revelando.

As novas técnicas inovadoras de experimentação na forma como contar uma história, mexendo com a temporalidade e/ou linearidade da narrativa, exigem do espectador uma atenção maior, uma atenção dupla no desenvolvimento do enredo. Exige que ele naturalmente preste atenção na história e em seu discurso narrativo, mas que também não se distraia e preste atenção à maneira como esta mesma história se desenrola. Esta dinâmica faz com que o suspense narrativo cresça. Como exemplo, em uma determinada situação-limite de um personagem no final de um episódio (ou de uma temporada), a ansiedade e as dúvidas na cabeça do espectador não serão mais apenas “o quê?”, mas também “como?”, o que leva ele a um nível de interesse e apreciação muito maior do que ele teria, se estivesse restrito apenas ao universo de desenvolvimento ficcional da narrativa .A partir deste interesse, o espectador se engaja na narrativa quase que em um patamar de dependência.

Em Dexter por exemplo, assim como em muitíssimos outros seriados de TV (principalmente do gênero de suspense), a forma como a história se desenvolve a cada episódio e a cada temporada acaba fazendo com que surja no desenrolar da trama certas convenções e normas intrínsecas que os telespectadores que acompanham a série completa internalizam como uma “segurança”, em cima do storytelling do seriado. Assim, episódios em que há acontecimentos que violam estas “regras” são os episódios que têm mais destaque, pois não correspondem às expectativas dos fãs e distorcem sua visão, quebrando a linha narrativa “subjetiva” interna criada por eles. Então, a partir desta quebra, o espectador tem de internalizar as mudanças de rumo e de sentido da trama, e passar a considerar o significado que essa violação das convenções estabelecidas pela relação entre ele e cada um dos episódios e temporadas da série pode vir a ter (e provavelmente terá) no sistema da narrativa como um todo, o que torna o “assistir” muito mais interessante pela nova direção que as mudanças da narrativa o conduziram.

O investimento em mudanças de sentido e situações-limites a que os personagens são expostos é o que valoriza a complexidade de uma narrativa. Incentivam uma análise mais ampla do objeto como um todo (série completa com todas as temporadas) e não somente um extrato (episódio), gerando um sentido maior de unidade entre cada uma das partes da história. Muito do sucesso de séries de suspense se deve justamente à imprevisibilidade dos acontecimentos e consequentemente às quebras de expectativas dos expectadores. Confundir os espectadores e/ou conduzi-los a um caminho e depois quebrar totalmente suas convenções é o que proporciona a sensação de surpresa, responsável pelo aumento do engajamento, interesse e até mesmo “fidelidade” de um telespectador com uma série de TV.

Estética da surpresa:

A Estética da Surpresa acaba sendo um dos aspectos responsáveis pelo fanatismo forense. Pois, embora o ser humano espectador esteja confortável que seu seriado siga uma linha narrativa que pouco se distancia de sua própria linha narrativa subjetiva, quando é pego de surpresa se vê obrigado a tentar entender, a descobrir o porquê e o como e essa sede por descobertas acaba criando uma ansiedade muito maior na espera pelos próximos episódios e assim a relação de dependência entre o seriado e o espectador cresce.

Escrito por: Cátia Nucci, Isabel Gonçalves e Júlia Oliveira.

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